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Mostrando postagens com o rótulo Blog do Economista

Reindustrializar com os Pés no Chão: Por que a Base Metal-Mecânica é Essencial para o Brasil (parte II)

Por Carlos Lima* No primeiro artigo desta série, mostramos como mitos tecnológicos obscurecem a necessidade real de reconstruir a base industrial brasileira. Agora, avançamos na análise ao apontar um setor-chave cuja ausência no centro da política industrial compromete qualquer ambição de desenvolvimento soberano: a indústria metal-mecânica. O programa Nova Indústria Brasil (NIB) representa um passo necessário na reconstrução da capacidade produtiva nacional. Após décadas de políticas liberais, desmonte industrial e especialização regressiva na exportação de commodities, o país volta a falar em reindustrialização. Mas para que esse esforço seja bem-sucedido, é preciso enfrentar uma omissão que compromete todo o projeto: a ausência de centralidade estratégica para a indústria metal-mecânica . Abaixo, detalhamos por que este setor é fundamental, onde estão as insuficiências do atual programa e que caminhos podem recolocar o Brasil nos trilhos de uma industrialização soberana. 1. O qu...

Os Mitos da Indústria do Futuro e o Bloqueio à Reindustrialização Brasileira (parte I)

Por Carlos Lima* Em meio à euforia global com a chamada “Indústria 4.0”, o Brasil assiste, de forma passiva, à consolidação de uma armadilha ideológica: a crença de que o futuro produtivo prescinde de fábricas, máquinas e trabalhadores industriais. Essa ilusão tecnocrática, amplamente difundida por setores da mídia e parte do empresariado, tem servido mais para justificar a estagnação industrial brasileira do que para orientar qualquer estratégia de desenvolvimento soberano. A realidade, no entanto, é dura e inescapável: sem base industrial forte, não há futuro econômico autônomo . A longa marcha da desindustrialização Entre 1985 e 2023, a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de 27% para cerca de 11%, segundo o IBGE. Trata-se de uma das maiores retrações industriais entre países de médio e grande porte no mundo. Essa perda não ocorreu de forma espontânea ou natural, mas foi resultado direto de escolhas políticas que favoreceram um modelo agroexportador ...

O enigma dos bilhões da CEDAE: promessas rasgadas, serviços precários, uso político do dinheiro público e descumprimento das obrigações contratuais

Por Carlos Lima* Em abril de 2021, o Governo do Estado do Rio de Janeiro realizou um dos maiores leilões de saneamento básico da história do Brasil: a privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), que arrecadou R$ 22,6 bilhões. Sob o pretexto da modernização, da universalização do acesso à água e do fim do esgoto a céu aberto, a operação foi vendida à população como uma solução definitiva para os históricos problemas de saneamento no estado. Mas três anos depois, o que se vê é o oposto do prometido: tarifas abusivas, aumento explosivo de reclamações, obras não entregues, obrigações contratuais descumpridas e um rastro de dúvidas sobre o destino do dinheiro público, alimentando suspeitas de uso político e eleitoral dos recursos em favor do então governador Cláudio Castro (PL). A bilionária venda da água pública O leilão, realizado na B3 (Bolsa de Valores de São Paulo), dividiu o estado em quatro blocos operacionais: • Bloco 1 – arrematado pela Águas do Rio (Grupo Aegea)...

Correios do Brasil: entre o desmonte e o potencial de reconstrução estratégica

Por Carlos Lima* Por uma política pública moderna, socialmente útil e economicamente sustentável Por muito tempo, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT) foi símbolo de integração nacional e um dos serviços públicos mais reconhecidos pela população. Mesmo diante de décadas de sucateamento, ataques privatistas e políticas de austeridade, os Correios resistiram. No entanto, em 2025, a atual gestão da estatal anuncia um pacote de cortes que expõe não apenas um diagnóstico apressado da crise, mas também uma concepção de futuro míope, restrita a um ajuste contábil e distante de qualquer estratégia nacional de desenvolvimento. Enquanto países como Índia, França, Japão, Alemanha e China reposicionam suas estatais postais como braços logísticos, financeiros e digitais do Estado, o Brasil insiste em fazer a EBCT andar de marcha à ré. A austeridade como resposta errada para uma crise estrutural Com um prejuízo de R$ 2,6 bilhões em 2024, a direção dos Correios anunciou medi...

📉 EUA rebaixado: o fim da era AAA e a hipocrisia fiscalista que sustenta impérios decadentes

🖊️ Por Carlos Lima Os Estados Unidos foram rebaixados pela agência Moody’s. De novo. E mesmo assim, o mundo segue girando. Wall Street subiu, o dólar não derreteu, os investidores globais continuam comprando títulos do Tesouro americano como se nada tivesse acontecido. Mas o que realmente está por trás desse episódio? Não é apenas mais um ajuste técnico de nota — é uma fotografia nítida da hipocrisia estrutural que sustenta a lógica fiscalista aplicada seletivamente no mundo . E mais: é mais um sinal visível da decadência da hegemonia estadunidense e do esgotamento de um modelo imperial de dominação financeira global . Déficits são um problema... só para os outros A dívida pública dos EUA já ultrapassa os US$ 34 trilhões . Mesmo assim, os gastos militares seguem em alta, as guerras por procuração continuam e o orçamento federal vive sob o caos de disputas internas entre democratas e republicanos — com risco de "shutdown" quase permanente. Não há teto de gastos para o Pen...

O aço que constrói ou o aço que trava? Uma crítica à acomodação da siderurgia brasileira

Por Carlos Lima* A indústria siderúrgica brasileira atravessa um momento de contradição histórica. Em meio a uma conjuntura marcada pela retomada do crescimento, pelo novo ciclo de investimentos em infraestrutura, reindustrialização e transição energética, o setor responde não com ousadia produtiva ou inovação tecnológica, mas com um coro já conhecido: mais tarifas, mais barreiras, mais proteção. Como revelou matéria recente de Jamil Chade no UOL, representantes da siderurgia nacional pressionam o governo federal por novas medidas contra o aço chinês, num tom de urgência que parece mais um grito de socorro de quem se recusa a competir. O problema não está em discutir medidas de defesa comercial. Todo país soberano tem o direito de proteger setores estratégicos quando há riscos reais à sua base produtiva. Mas o que se vê no Brasil é um modelo de protecionismo sem contrapartidas , uma espécie de muleta institucionalizada para um setor que se habituou a operar sob a sombra do Estado, se...

Feminismo Emancipacionista e o Enfrentamento do Machismo: Para Além da Moralização

Por Carlos Lima, economista Resumo O presente artigo discute o enfrentamento do machismo na sociedade moderna sob a ótica do feminismo emancipacionista. Rejeitando abordagens moralizantes centradas na reeducação individual dos homens, propõe uma análise estrutural que articula gênero, classe e reprodução social. O texto parte da crítica à personalização da opressão de gênero, aprofunda o entendimento do machismo como componente funcional do capitalismo e propõe caminhos para o fortalecimento da luta popular por transformação real das condições de vida das mulheres. Por que não basta “ensinar o homem a não ser machista” O debate público contemporâneo sobre o machismo frequentemente se limita à esfera comportamental, adotando estratégias moralizantes que buscam “ensinar homens a não serem machistas”. Embora essa abordagem possa parecer progressista, ela oculta a natureza estrutural da opressão de gênero e acaba por despolitizar uma luta que exige transformação profunda das bases soci...

Bebês Reborn e a Infantilização Tóxica na Sociedade Contemporânea

Por Carlos Lima* Como não sou psicólogo, pedi a ajuda a IA para fazer esse texto sobre a proliferação dos chamados “bebês reborn” — bonecos hiper-realistas que imitam recém-nascidos. Essa espécie de massificação expõe traços significativos de uma cultura marcada pela regressão afetiva e pela negação das responsabilidades adultas. Embora tais objetos sejam, em certos contextos, utilizados com finalidades terapêuticas legítimas, seu consumo massivo revela elementos preocupantes de uma infantilização tóxica dos adultos , que deve ser analisada à luz da psicologia social crítica e das contradições do capitalismo contemporâneo. Trata-se de uma mercadoria que mobiliza afetos, ansiedades e carências em larga escala. Vendidos com trajes personalizados, “certidões de nascimento” e kits de cuidado, os reborns não são apenas brinquedos sofisticados ou peças de coleção: tornam-se simulacros de filhos, com os quais muitas pessoas estabelecem vínculos emocionais profundos. Há casos em que adultos o...

Cresce a precarização nas prefeituras: o avanço dos contratos temporários e a erosão do Estado de Bem-Estar Social

Por Carlos Lima* Enquanto o Brasil ainda sonha com a construção de um Estado de Bem-Estar Social pleno, digno das promessas constitucionais de 1988, um dado alarmante revela o caminho inverso: entre 2013 e 2023, as prefeituras brasileiras ampliaram em 52,5% o número de funcionários temporários. Hoje, cerca de 20% da força de trabalho municipal é composta por trabalhadores sem vínculo permanente, segundo dados divulgados pelo IBGE e noticiados pela Folha de S.Paulo . Em 11% dos municípios, mais da metade do funcionalismo é temporário. Sob o pretexto de contenção de despesas e de respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal, prefeitos e gestores substituem concursos públicos por contratações frágeis, de curta duração, que minam a estabilidade e a profissionalização do serviço público. Na prática, isso equivale a desmontar as bases do serviço público de qualidade e a desfigurar o papel do Estado como garantidor de direitos. O impacto é profundo nas áreas mais sensíveis à população — saúde,...

Saúde Caixa: o desmonte de um direito histórico e a resposta necessária da classe trabalhadora

Por Carlos Lima* O plano de saúde dos empregados da Caixa Econômica Federal, construído ao longo de décadas como expressão concreta da solidariedade e da luta coletiva dos bancários, vem sofrendo um processo acelerado de desmonte. A atual gestão da empresa, mesmo sob um governo popular, opta por manter políticas neoliberais herdadas do período golpista, como o famigerado teto de 6,5% da folha de pagamento para a contribuição patronal. Essa decisão, longe de ser neutra, é profundamente lesiva aos direitos dos trabalhadores — especialmente dos aposentados, que estão sendo empurrados para fora do plano por conta de reajustes brutais. Um dos efeitos mais cruéis dessa política é a previsão de um aumento médio inicial de 77% nas mensalidades dos aposentados, conforme divulgado pela APCEF/SP. Embora esse reajuste ainda não tenha sido efetivado, sua mera possibilidade evidencia o objetivo oculto da Caixa: tornar inviável a permanência dos que mais utilizam o plano, forçando a saída de milha...

Lula em Pequim: o Sul Global levanta a cabeça

Por Carlos Lima A recente visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China não foi apenas mais um capítulo da diplomacia bilateral. Foi uma afirmação simbólica e estratégica de que o Brasil — e com ele, o Sul Global — não aceita mais o papel subalterno que lhe foi historicamente imposto. Mais do que estreitar laços com Pequim, Lula foi enterrar a Doutrina Monroe e reafirmar a busca por um mundo multipolar. Ao desembarcar com ministros e empresários para fechar acordos em infraestrutura, energia e tecnologia, Lula deixou claro: a relação com a China é pragmática, baseada em desenvolvimento concreto, e não em promessas vazias travestidas de “promoção da democracia” — marca registrada de intervenções desastrosas patrocinadas por Washington ao longo do século XX. Na sede do Banco dos BRICS em Xangai, presidido por Dilma Rousseff, o gesto político foi ainda mais poderoso. A mesma mulher que enfrentou um tribunal militar aos 22 anos e foi destituída por um impeachment controverso ag...

China, América Latina e a chantagem dos EUA: o preço da soberania no tabuleiro global

Por Carlos Lima – economista Enquanto a China avança em suas relações com a América Latina por meio de iniciativas como a CELAC e a Nova Rota da Seda, os Estados Unidos reagem com ameaças veladas e pressões diplomáticas para conter essa aproximação. É o que revela o artigo publicado no último dia 12 de maio pelo Financial Times, reproduzido pela Folha de S.Paulo, ao relatar o dilema da Colômbia diante de possíveis sanções norte-americanas por anunciar sua adesão à BRI (Belt and Road Initiative). O caso colombiano expõe mais uma vez o que tem sido a regra nas relações hemisféricas: a América Latina ainda é tratada por Washington como um quintal geopolítico. A ameaça, feita de maneira nada sutil por um ex-funcionário do Departamento de Estado, de favorecer exportadores concorrentes se a Colômbia estreitar laços com Pequim, não é apenas uma atitude antidemocrática — é a expressão clara de uma política externa baseada no controle e na coerção, típica de potências que veem a ascensão multip...

Oligopólio Financeiro e o Imbróglio BRB-Master: A Urgência de Enfrentar a Concentração Bancária no Brasil

Por Carlos Lima  Em uma postagem recente no X (antigo Twitter), o professor Elias Jabbour (UERJ) cravou: “O oligopólio financeiro opera abertamente contra a possibilidade de aparecer outra instituição de porte no país. (...) O crime, no caso, é o de crescer e não os balancetes. O crime é o de um banco regional assumir operações de uma instituição que o tornaria um player nacional.” A análise, contundente, joga luz sobre a polêmica operação entre o Banco Master e o BRB (Banco de Brasília), que mais uma vez evidenciou o poder e a resistência do sistema financeiro brasileiro à competição. A controvérsia em torno dessa operação revelou muito mais do que eventuais questões técnicas ou jurídicas: escancarou o caráter profundamente concentrado e excludente do setor bancário nacional. Hoje, aproximadamente 80% das operações bancárias estão sob o controle de cinco grandes instituições, compondo um dos oligopólios financeiros mais sólidos do mundo capitalista periférico. Esse cenário não ...

É a raposa cuidando do galinheiro: os juros altos e o saque institucionalizado

Por Carlos Lima O povo sabe das coisas. Não por acaso existe aquele ditado certeiro: “Colocar a raposa para cuidar do galinheiro não dá certo.” É exatamente isso que acontece no Brasil quando falamos da política de juros e do papel do Banco Central. O que vemos hoje é o mercado financeiro — os grandes bancos, fundos e especuladores — ditando a política monetária que vai diretamente encher seus próprios bolsos , enquanto o povo paga a conta com arrocho salarial e precarização. O Boletim Focus , que virou referência para as decisões do Copom, é o maior exemplo desse absurdo institucionalizado. Ele é alimentado por aqueles mesmos bancos e agentes financeiros que têm interesse direto em juros altos. Eles jogam o jogo e ainda escrevem as regras: dizem que a inflação está ameaçadora, criam um clima de pânico, e o Banco Central responde prontamente aumentando a taxa Selic — o que significa lucros bilionários para os mesmos que apontaram o “problema”. Nesta semana, a farsa se repetiu: o C...

O Copom Vai Decidir: Mais uma Dose de Veneno para a Economia

Por Carlos Lima Nos dias 6 e 7 de maio, o todo-poderoso Comitê de Política Monetária — aquela turma “independente” que, na prática, responde com um telefonema aos caprichos do mercado financeiro — vai se reunir de novo para decidir o destino da economia brasileira. Spoiler: não espere nada diferente. A expectativa é manter a taxa Selic no criminoso patamar de 14,25% ou, quem sabe, dar mais uma espetada para cima — afinal, os rentistas estão com sede. Enquanto o Brasil real tenta sobreviver com crescimento de 1,7% ao ano, desemprego batendo quase 8% (e com quase metade da força de trabalho na informalidade ou na uberização), nossos “gênios” da política monetária seguem convictos: para domar a inflação, o remédio é sempre o mesmo — desemprego, arrocho salarial e sufocamento da atividade econômica. Um show de criatividade. A ata da última reunião já havia deixado a mensagem clara, numa prosa tão fria quanto desumana: “a desaceleração da atividade econômica é elemento necessário para a ...