Carlos Lima*
Há uma ideia profundamente incorporada ao debate econômico segundo a qual, em determinadas circunstâncias, seria necessário sacrificar o bem-estar presente para alcançar maior estabilidade e prosperidade no futuro. A política de juros é talvez sua expressão mais evidente. Eleva-se o custo do crédito, reduz-se deliberadamente o consumo, desestimula-se o investimento e aceita-se uma desaceleração da atividade econômica porque, mais adiante, a inflação supostamente estará controlada e a sociedade poderá usufruir de condições melhores. O raciocínio parece coerente quando observado apenas através das variáveis macroeconômicas. Seu problema fundamental é tratar o tempo da economia como se ele fosse também o tempo dos seres humanos.
Capital pode ser acumulado, dinheiro pode ser poupado e uma empresa pode transferir determinado investimento de um exercício para outro. Para os seres humanos, entretanto, o tempo é finito e irreversível. Uma criança que passa uma etapa decisiva de sua formação sem alimentação adequada não poderá simplesmente transferir essa necessidade para uma idade posterior. Um jovem que permanece anos sem oportunidade de formação e trabalho perde uma fase importante de sua construção profissional. Um trabalhador submetido ao desemprego prolongado não recupera integralmente depois a renda, a experiência e as possibilidades de vida que perdeu. Da mesma maneira, quem chega à velhice não pode ser informado de que finalmente poderá usufruir do bem-estar do qual abriu mão durante décadas, porque suas condições físicas, familiares e sociais já serão outras. Envelhecer não é uma escolha econômica, e o tempo de vida não pode ser estocado para consumo futuro.
Essa constatação estabelece um limite concreto para a ideia de sacrificar continuamente o presente em nome de uma prosperidade futura. Não basta afirmar que determinada política econômica produzirá benefícios daqui a alguns anos. É necessário perguntar quem suportará seus custos enquanto esses resultados não chegam, durante quanto tempo e em quais condições essas pessoas estarão quando o futuro prometido finalmente chegar. Uma política pode apresentar resultados considerados satisfatórios nos indicadores agregados e, ainda assim, ter consumido parcelas irrecuperáveis da vida de milhões de pessoas. Para quem perdeu anos no desemprego, viveu com renda insuficiente ou chegou à velhice sem poder usufruir das condições materiais que ajudou a produzir, o crescimento posterior do PIB não recompõe automaticamente aquilo que foi perdido.
Essa questão ganha enorme importância quando examinamos a política monetária. O aumento dos juros procura conter a inflação principalmente por meio da redução da demanda. O crédito se torna mais caro, famílias compram menos, empresas reduzem seus planos de expansão e a atividade econômica perde força. O objetivo declarado é diminuir as pressões sobre os preços para preservar o poder de compra no futuro. A estabilidade dos preços é evidentemente importante, sobretudo para os trabalhadores, cuja renda é diretamente corroída pela inflação. Mas isso não elimina a necessidade de examinar os efeitos produzidos pelo próprio instrumento utilizado para alcançá-la.
É nesse ponto que aparece uma contradição frequentemente subestimada: o remédio pode alimentar a doença que pretende combater. Juros elevados não atingem somente o consumo. Eles encarecem o capital de giro, aumentam os custos financeiros das empresas e tornam o investimento produtivo menos atraente diante da remuneração oferecida pelas aplicações financeiras. Projetos deixam de ser realizados, máquinas deixam de ser adquiridas, fábricas deixam de ser ampliadas e a incorporação de novas tecnologias pode ser adiada. A economia consegue reduzir parte da demanda presente, mas simultaneamente pode comprometer a expansão da oferta futura. Quando o crescimento retorna, encontra uma capacidade produtiva menor do que aquela que poderia existir caso o investimento não tivesse sido tão fortemente reprimido.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando a inflação não resulta fundamentalmente de uma demanda excessiva. Se os alimentos encarecem por problemas de produção ou abastecimento, se a energia pressiona os custos, se a desvalorização cambial transmite aumentos para a economia ou se gargalos de infraestrutura elevam o preço da produção e da circulação das mercadorias, a elevação dos juros pode impedir que esses aumentos iniciais se disseminem, mas não remove suas causas. Ao contrário, quando permanece excessivamente restritiva por muito tempo, a política monetária pode dificultar os investimentos capazes de aumentar a produção, melhorar a infraestrutura e elevar a produtividade. Combate-se a pressão inflacionária presente comprimindo a economia e, ao mesmo tempo, enfraquecem-se alguns dos mecanismos que poderiam evitar novas pressões no futuro.
Há uma diferença econômica fundamental entre sacrificar recursos presentes para criar capacidade futura e simplesmente restringir a atividade esperando melhores condições adiante. Construir uma ferrovia exige trabalho e recursos hoje, mas deixa para a sociedade uma infraestrutura que aumentará a produtividade durante décadas. Desenvolver uma tecnologia também mobiliza recursos presentes, mas amplia a capacidade futura de produzir. O mesmo ocorre com educação, saneamento, energia e industrialização. Existe nesses casos uma escolha entre presente e futuro, porém o esforço atual cria patrimônio, conhecimento ou capacidade produtiva. A simples compressão monetária não oferece necessariamente essa contrapartida. O Estado pode terminar o período de restrição com inflação menor, mas também com investimentos que não aconteceram e capacidades produtivas que deixaram de ser construídas.
A dimensão de classe dessa política também precisa ser explicitada. Quando se afirma que “a sociedade” precisa suportar determinado sacrifício para controlar a inflação, cria-se a impressão de que seus custos são distribuídos igualmente. Não são. O trabalhador endividado encontra prestações mais caras e aquele que procura emprego enfrenta uma economia menos aquecida. Pequenas empresas encontram maior dificuldade para financiar suas atividades, enquanto o investimento produtivo precisa oferecer rentabilidade cada vez mais elevada para competir com aplicações financeiras. Ao mesmo tempo, proprietários de grandes patrimônios financeiros podem aumentar seus rendimentos justamente em consequência da política apresentada como um sacrifício necessário a todos. A política monetária não transfere apenas consumo do presente para um futuro esperado; ela também redistribui renda, oportunidades e poder entre diferentes grupos sociais no próprio presente.
Por isso é tão pobre uma concepção de política econômica que acaba resumindo seus objetivos à convergência de algumas variáveis financeiras. A estabilidade dos preços é necessária, mas não constitui a finalidade última da organização econômica da sociedade. A própria Constituição brasileira estabelece um horizonte muito mais amplo ao tratar do desenvolvimento nacional, da redução das desigualdades, da valorização do trabalho, da busca do pleno emprego e da garantia de uma existência digna. Esses objetivos não deveriam aparecer como questões sociais a serem atendidas depois que a política econômica tivesse realizado sua tarefa principal. Eles fazem parte da própria razão pela qual a política econômica existe.
Isso muda também a forma de avaliar o desenvolvimento. Não basta que o crescimento produza um futuro estatisticamente melhor. É necessário que a transformação da capacidade produtiva do país melhore progressivamente as condições concretas da população que está realizando essa transformação. Construir o futuro e assegurar uma vida digna no presente não podem ser objetivos permanentemente contrapostos. Uma sociedade precisa investir, poupar recursos e preparar as condições de vida das gerações seguintes, mas não pode fazer disso uma justificativa permanente para negar às gerações presentes o acesso aos resultados do trabalho que já realizam.
É nesse contexto que salário e jornada deixam de aparecer apenas como reivindicações distributivas e passam a integrar uma concepção mais ampla de desenvolvimento. O salário representa uma parcela da riqueza social que permite ao trabalhador usufruir materialmente daquilo que a sociedade produz. Sua valorização também fortalece o mercado interno e pode estimular a própria expansão produtiva. A jornada toca numa questão ainda mais profunda. Se o desenvolvimento tecnológico permite produzir uma quantidade crescente de riqueza com menos trabalho humano, parte desse ganho de produtividade pode ser convertida em redução do tempo necessário de trabalho sem redução salarial. O progresso técnico passa, dessa forma, a melhorar a vida não apenas aumentando a quantidade de bens disponíveis, mas devolvendo aos trabalhadores algo que nenhuma política econômica futura poderá restituir: tempo de vida.
Uma pessoa não pode trabalhar indefinidamente esperando desfrutar a vida depois, assim como uma geração inteira não deveria ser convocada a suportar permanentemente salários insuficientes, oportunidades adiadas e crescimento reprimido sob a promessa de que algum equilíbrio econômico futuro finalmente permitirá viver melhor. Há momentos em que escolhas coletivas difíceis são inevitáveis, mas uma perspectiva classista exige perguntar quem define o que será sacrificado, quem suporta o peso dessas decisões e quem se apropria dos resultados quando eles aparecem. Essa pergunta é indispensável porque o tempo sacrificado por quem vive do trabalho não poderá ser devolvido por nenhuma taxa futura de crescimento.
O desafio de uma política econômica voltada para o desenvolvimento é, portanto, mais ambicioso do que escolher entre bem-estar presente e prosperidade futura. Trata-se de mobilizar trabalho, conhecimento e recursos disponíveis hoje para ampliar a capacidade produtiva de amanhã, fazendo com que os frutos desse processo melhorem simultaneamente a existência daqueles que o constroem. O futuro importa, mas os seres humanos vivem no presente. Um Estado que promete permanentemente o bem-estar de amanhã enquanto restringe as possibilidades de viver dignamente hoje falha em uma de suas finalidades fundamentais: construir o futuro sem sacrificar a vida de quem precisa chegar até ele.
Carlos Lima é bancário e economista
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