Carlos Lima*
O UOL publicou nesta sexta-feira, 14 de agosto, uma matéria para explicar por que as ações do Banco do Brasil caíram mesmo depois de o banco apresentar lucro bilionário. O centro da explicação está no crescimento da inadimplência, principalmente no agronegócio, onde chegou a 6,3%. O problema existe, mas a forma como é apresentado revela algo muito comum no jornalismo econômico: a visão do chamado “mercado” aparece como se fosse a interpretação natural da economia, enquanto o papel do Banco do Brasil como banco público e agente de políticas governamentais praticamente desaparece.
O próprio balanço mostra uma realidade mais ampla. O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 3,3% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 13,9% sobre o trimestre anterior. Mesmo assim, o foco da cobertura se deslocou para a inadimplência e para a reação negativa das ações. A questão não é esconder problemas do BB. É perceber como eles são selecionados e interpretados: os indicadores negativos recebem explicações, projeções e opiniões de analistas, enquanto os elementos capazes de explicar ou reduzir seus efeitos recebem muito menos atenção.
Essa diferença fica evidente no tratamento da inadimplência rural. Para compreender corretamente esses números é preciso saber que grande parte do crédito agrícola não pode ser tratada como um empréstimo bancário comum. O Banco do Brasil é um dos principais executores da política agrícola brasileira. Por meio do Plano Safra e de programas como Pronaf e Pronamp, além de outras linhas oficiais, o Estado direciona recursos para custeio, investimento e comercialização da produção. O BB participa dessa política utilizando diferentes fontes de recursos e instrumentos públicos destinados a garantir a continuidade da produção agropecuária.
Isso muda profundamente a interpretação da inadimplência. Quando um trabalhador deixa de pagar uma dívida pessoal, temos uma relação entre ele e seu banco. Quando milhares de produtores deixam simultaneamente de pagar financiamentos porque uma seca destruiu a safra, uma enchente atingiu determinada região ou os preços agrícolas despencaram, existe um problema econômico muito maior. A crise atinge produção, empregos, fornecedores, transportadores, comércio e arrecadação dos municípios. Por isso, historicamente, diferentes governos criaram mecanismos de renegociação, prorrogação e refinanciamento das dívidas rurais, além de instrumentos como garantias, seguros e o Proagro.
Portanto, não estamos simplesmente diante de um Banco do Brasil que emprestou mal e agora procura alternativas para recuperar seu dinheiro. Parte importante desses financiamentos integra uma política de Estado destinada a sustentar a agropecuária. Quando acontecimentos extraordinários comprometem a capacidade de pagamento dos produtores, o próprio poder público pode criar condições para reorganizar essas dívidas e preservar a atividade produtiva. Isso interessa também ao banco, porque recuperar um produtor e sua capacidade de pagamento pode ser economicamente melhor do que levá-lo à insolvência e transformar toda a dívida em prejuízo.
Por isso, quando a matéria informa que a inadimplência do agronegócio chegou a 6,3%, falta fazer perguntas essenciais. Qual parcela dessa carteira está relacionada aos programas oficiais de crédito rural? Quais operações estão cobertas por garantias ou outros instrumentos? Quanto poderá ser renegociado através das medidas adotadas pelo governo? Quanto voltará a ser pago depois dessas renegociações? E, somente ao final, quanto realmente deverá transformar-se em perda para o Banco do Brasil? Sem responder a essas questões, apresenta-se o tamanho da inadimplência de hoje como se ele fosse suficiente para antecipar o prejuízo de amanhã.
Afinal, quem é esse “mercado”?
Há ainda uma questão que os trabalhadores precisam compreender. Quando a imprensa diz que “o mercado está preocupado”, “o mercado perdeu confiança” ou “o mercado puniu o Banco do Brasil”, parece que existe uma entidade representando a opinião geral da sociedade. Mas o mercado tem nome, endereço e interesses. São bancos, fundos, corretoras, gestoras e grandes investidores que movimentam recursos buscando rentabilidade. Algumas das instituições chamadas pela imprensa para avaliar o Banco do Brasil pertencem inclusive a conglomerados que disputam clientes e negócios com o próprio BB.
Esses agentes produzem projeções sobre quanto uma empresa deverá lucrar. A média dessas projeções vira a chamada “expectativa do mercado”. Depois do balanço, as mesmas instituições são consultadas para avaliar o resultado. Suas opiniões são divulgadas pela imprensa, investidores reagem e as ações podem subir ou cair. Se caem, surge uma nova notícia dizendo que “o mercado puniu” a empresa. Assim, quem produz expectativas participa do ambiente no qual essas expectativas influenciam os preços, e depois o próprio preço pode ser utilizado como confirmação da interpretação inicial.
A própria regulamentação financeira reconhece que existem potenciais conflitos de interesses nesse universo. Entretanto, quando as avaliações chegam ao noticiário, quase sempre desaparece a condição concreta de quem fala. O cidadão não recebe simplesmente a opinião de uma instituição financeira interessada no funcionamento daquele mercado; recebe a opinião do “mercado”, palavra que confere àquele interesse particular uma aparência de neutralidade e universalidade.
O trabalhador conhece essa linguagem
Para quem vive do trabalho, esse mecanismo não deveria ser estranho. Quando trabalhadores reivindicam reajuste salarial, frequentemente ouvimos que isso aumenta o “custo do trabalho”. Quando grandes empresas distribuem bilhões aos acionistas, fala-se em “remuneração do capital”. O salário aparece como custo; o lucro aparece como remuneração. A linguagem econômica dominante não é neutra. Ela carrega uma visão de mundo na qual os interesses do capital são apresentados como necessidades naturais da economia.
O mesmo acontece quando investidores querem maior retorno e a imprensa diz que “o mercado exige rentabilidade”, ou quando vendem ações e ouvimos que “o mercado puniu” uma empresa. O mercado não pune ninguém. Investidores compram e vendem ativos para defender seus recursos e ganhar dinheiro. Transformar essa decisão em punição significa conferir aos proprietários do capital a condição de juízes da economia e, por consequência, das políticas públicas.
Não é necessário imaginar um banqueiro telefonando para a redação e mandando publicar determinada manchete. A relação entre a grande mídia e o capital é mais profunda. Os grandes meios de comunicação também são empresas e o jornalismo econômico busca grande parte de suas fontes exatamente entre bancos, corretoras, fundos, consultorias e economistas ligados ao sistema financeiro. Dessa maneira, a visão de uma classe e de seus agentes econômicos vai sendo apresentada cotidianamente como se fosse simplesmente a visão técnica sobre a economia.
Banco público é instrumento de desenvolvimento
É justamente por isso que o Banco do Brasil incomoda quando cumpre plenamente sua função pública. O BB precisa ser sólido e eficiente, mas não existe somente para maximizar o retorno de quem compra suas ações. É um dos instrumentos através dos quais o Estado brasileiro financia agricultura, empresas, comércio exterior, investimentos e desenvolvimento regional. Em períodos de crise, um banco público pode ainda manter linhas de financiamento quando instituições privadas preferem reduzir sua exposição e proteger sua rentabilidade.
Para os trabalhadores, essa diferença é concreta. Quando o crédito desaparece, produtores deixam de produzir, empresas deixam de investir e empregos são destruídos. O crédito determina quem terá condições de produzir, investir e atravessar períodos de dificuldade. Por isso, controlar o crédito significa exercer uma parcela importante do poder econômico. Um grande banco público coloca parte desse poder nas mãos do Estado e cria a possibilidade de utilizá-lo de acordo com objetivos de desenvolvimento que não se resumem à rentabilidade imediata do capital financeiro.
Quando o Banco do Brasil sustenta crédito para determinado setor numa conjuntura difícil, o risco aparece rapidamente no balanço. A provisão aumenta, a rentabilidade pode cair e os analistas do mercado registram o impacto. Mas os empregos preservados, a produção mantida, os fornecedores que continuam funcionando e a renda que permanece circulando nas cidades não aparecem no preço de BBAS3. O risco entra imediatamente na conta do banco; o benefício produzido para a economia e para os trabalhadores fica fora da conta dos investidores.
Quando a notícia econômica vira política
Essa discussão ganha importância ainda maior em ano eleitoral. Primeiro aparece uma informação verdadeira: a inadimplência aumentou. Depois outra: as ações caíram. Em seguida surge a interpretação de que “o mercado perdeu confiança no Banco do Brasil”. O passo seguinte é transformar essa interpretação em julgamento sobre o governo. Assim, problemas econômicos que precisam ser analisados dentro de seu contexto passam a alimentar uma narrativa política sobre suposta deterioração das empresas públicas.
Esse mecanismo é eficiente porque não depende necessariamente de notícias falsas. Basta selecionar determinados fatos, dar grande destaque a alguns, reduzir a importância de outros e escolher quem terá autoridade para explicar o conjunto. Uma matéria pode publicar números corretos e ainda assim oferecer uma visão parcial da realidade. A disputa ideológica não ocorre somente entre verdade e mentira; ocorre também na escolha de quais fatos serão destacados e de quem terá o poder de dizer ao cidadão o que eles significam.
É exatamente esse o problema da matéria do UOL. Ela oferece ao leitor muitos elementos para compreender por que determinados agentes do mercado financeiro estão preocupados com o Banco do Brasil, mas não oferece a mesma profundidade para compreender o funcionamento da política pública de crédito rural, os instrumentos governamentais de renegociação e proteção dessas operações e quanto da inadimplência poderá efetivamente transformar-se em perda.
Para os trabalhadores, aprender a ler criticamente o noticiário econômico é parte da própria disputa por consciência. Precisamos perguntar não apenas se um número publicado é verdadeiro, mas por que aquele número recebeu destaque, quais informações ficaram em segundo plano, quem foi chamado para interpretá-lo e quais interesses sociais estão presentes nessa interpretação.
A discussão sobre o Banco do Brasil, portanto, vai muito além de saber se BBAS3 subiu ou caiu num determinado pregão. Estamos falando de uma instituição que controla e direciona uma parcela gigantesca do crédito nacional. Estamos discutindo se esse crédito será utilizado apenas segundo a lógica da rentabilidade financeira ou se poderá servir também para financiar produção, desenvolvimento e empregos.
No fundo, a questão é muito simples e diz respeito diretamente aos trabalhadores: quem controla o dinheiro, para onde ele vai e a serviço de quem funciona a economia brasileira?
É essa pergunta que desaparece quando o Banco do Brasil é julgado apenas pelos olhos do chamado “mercado”.
(*) Carlos Lima é bancário e economista

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