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Turismo não é projeto de desenvolvimento


Por Carlos Lima*

O Rio de Janeiro consolidou, nas últimas décadas, uma imagem internacional construída sobre sua extraordinária beleza natural, seu patrimônio cultural e sua vocação para receber visitantes. Trata-se de um ativo econômico importante, que deve ser valorizado. O turismo gera empregos, movimenta o comércio, fortalece a cultura, amplia a arrecadação tributária e projeta a cidade no cenário mundial. Nenhuma política séria de desenvolvimento deve ignorar sua relevância.

O equívoco começa quando o turismo deixa de ser uma atividade complementar e passa a ocupar o centro da estratégia econômica do poder público. Ao privilegiar uma economia baseada em serviços, entretenimento e grandes eventos, corre-se o risco de substituir um projeto de desenvolvimento por um projeto de consumo. São objetivos distintos. O primeiro produz riqueza; o segundo faz circular riqueza já existente.

O desenvolvimento econômico exige muito mais do que fluxo de visitantes. Exige capacidade de produzir conhecimento, incorporar tecnologia, ampliar a produtividade, fortalecer cadeias produtivas, formar trabalhadores qualificados e gerar empregos de alta remuneração. Nenhuma sociedade alcançou elevados níveis de desenvolvimento sustentando-se exclusivamente sobre serviços turísticos.

As economias mais avançadas do mundo possuem forte presença industrial, intensa atividade científica e tecnológica e sofisticadas cadeias produtivas. O turismo prospera porque essas economias são fortes. Não é ele que lhes confere essa força.

O Rio de Janeiro reúne condições excepcionais para construir uma estratégia semelhante. O estado concentra a principal indústria de petróleo e gás do país, importantes estaleiros, infraestrutura portuária estratégica, centros de pesquisa, universidades de excelência, instituições como a Fiocruz, empresas de engenharia, atividades ligadas à defesa, energia, logística e um enorme potencial para a economia do mar e para o complexo econômico-industrial da saúde. São essas atividades que elevam a produtividade, estimulam a inovação e criam empregos de maior qualificação.

Entretanto, a narrativa predominante das políticas municipais tem enfatizado cada vez mais o turismo, os eventos internacionais e a economia dos serviços como principal caminho para o crescimento econômico. Embora essas iniciativas produzam resultados positivos de curto prazo, elas não substituem uma política consistente de desenvolvimento produtivo.

A experiência europeia oferece importantes advertências. Lisboa, Barcelona, Veneza e Amsterdã tornaram-se destinos turísticos globais extremamente bem-sucedidos. Porém, esse sucesso veio acompanhado por um forte aumento do custo da moradia, da valorização imobiliária, da substituição do comércio tradicional por atividades voltadas aos visitantes e da expulsão gradual da população residente dos bairros centrais.

O fenômeno tornou-se tão intenso que essas cidades passaram a adotar políticas antes impensáveis: limitação de hospedagens temporárias, restrições ao crescimento da rede hoteleira, aumento das taxas de turismo, controle sobre cruzeiros marítimos e regulamentação rigorosa das plataformas digitais de aluguel por temporada. A preocupação deixou de ser atrair mais turistas. Passou a ser preservar a cidade para seus próprios habitantes.

O Rio de Janeiro ainda não vive essa realidade na mesma intensidade, mas diversos sinais apontam para uma trajetória semelhante. Em bairros como Copacabana, Ipanema e Leblon cresce a conversão de imóveis residenciais em hospedagens de curta duração. Empreendimentos imobiliários passam a ser concebidos como ativos destinados ao mercado turístico, e não necessariamente como moradias permanentes. A valorização dos imóveis tende a acompanhar a capacidade de consumo de visitantes nacionais e estrangeiros, enquanto os salários dos trabalhadores cariocas permanecem condicionados à realidade econômica local.

Forma-se, assim, uma contradição crescente. A cidade torna-se cada vez mais cara para quem nela vive e trabalha, embora continue relativamente acessível para quem a visita por poucos dias. Professores, profissionais da saúde, comerciários, bancários, trabalhadores da cultura, servidores públicos e inúmeros outros segmentos passam a enfrentar dificuldades para permanecer próximos dos locais onde exercem suas atividades.

Esse processo não representa apenas um problema habitacional. Constitui uma distorção econômica. Uma cidade que expulsa sua força de trabalho aumenta seus custos de transporte, pressiona sua infraestrutura, reduz a vitalidade do comércio de bairro e compromete a própria sustentabilidade de seu desenvolvimento.

Por isso, a política de moradia deve ser compreendida sob uma perspectiva mais ampla. Habitação não é apenas um direito social. É também infraestrutura econômica.

Da mesma forma que o Estado investe em portos, estradas, energia, saneamento e mobilidade para garantir o funcionamento da economia, deve assegurar um estoque permanente de moradias acessíveis aos trabalhadores que sustentam diariamente a vida urbana. Sem trabalhadores vivendo na cidade, nenhuma economia de serviços, nenhuma indústria, nenhum hospital, nenhuma escola e nenhum equipamento cultural funcionam adequadamente.


Essa compreensão impõe uma mudança importante na formulação das políticas públicas. A habitação de interesse social precisa ser protegida da lógica da financeirização imobiliária e da expansão indiscriminada da hospedagem temporária. Empreendimentos construídos ou financiados com recursos públicos devem permanecer destinados prioritariamente à moradia permanente, vedando sua utilização para aluguel de curta duração ou outras formas de exploração especulativa.

Mais do que isso, o município deve estabelecer instrumentos permanentes de regulação que preservem um equilíbrio entre o desenvolvimento do turismo e o direito à cidade. A regulamentação das plataformas digitais de hospedagem, a proteção do comércio local, a utilização dos instrumentos urbanísticos previstos na legislação, a tributação adequada das atividades que capturam rendas extraordinárias do turismo e o direcionamento desses recursos para habitação, mobilidade e infraestrutura constituem medidas legítimas de defesa da economia urbana.

Não se trata de combater o turismo. Ao contrário, trata-se de preservá-lo como uma atividade sustentável. O turismo deixa de ser virtuoso quando passa a elevar o custo de vida, reduzir a oferta de moradias, enfraquecer a economia local e transformar bairros inteiros em espaços voltados predominantemente ao consumo de visitantes.

Uma cidade equilibrada deve ser capaz de receber bem seus turistas sem sacrificar seus moradores. O visitante é sempre bem-vindo. Mas a cidade pertence, antes de tudo, àqueles que nela vivem, trabalham, estudam, pagam impostos e constroem diariamente sua riqueza material e cultural.

O Rio de Janeiro não precisa escolher entre turismo e desenvolvimento produtivo. Precisa escolher entre um modelo baseado predominantemente na circulação de renda e outro comprometido com a geração de riqueza, inovação e empregos qualificados. O turismo deve integrar esse projeto como uma atividade estratégica e complementar, jamais como seu eixo organizador.

O verdadeiro indicador do sucesso de uma política urbana não será o número de turistas desembarcando nos aeroportos, nem a ocupação dos hotéis durante os feriados. Será a capacidade de garantir que um jovem professor consiga morar perto da escola onde leciona, que uma enfermeira possa viver próxima ao hospital onde trabalha, que um comerciário não precise atravessar horas de deslocamento para chegar ao emprego, que um bancário, um operário, um pesquisador ou um pequeno empresário possam construir sua vida na cidade sem serem expulsos pelo aumento artificial do custo de vida.

Uma cidade que protege seus moradores protege também sua economia. E uma política de desenvolvimento que coloca os residentes no centro de suas decisões constrói uma cidade mais justa, mais dinâmica e mais preparada para o futuro.


(*) Carlos Lima é economista e dirigente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro 

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