O "Jogo Vermelho": quando Palmeiras e
Corinthians jogaram pelo mesmo lado
Por
Carlos Lima*
Em meio à
Copa do Mundo, quando o futebol volta a ocupar o centro das atenções, é comum
surgirem lembranças de grandes jogos, craques inesquecíveis e conquistas
históricas. Mas algumas histórias revelam muito mais sobre o Brasil do que
sobre o próprio esporte. Uma delas aconteceu em São Paulo, em outubro de 1945,
quando Palmeiras e Corinthians entraram em campo para disputar um clássico que
acabaria entrando para a história política do país.
O
episódio ficou conhecido décadas depois como o "Jogo Vermelho". A
expressão chama atenção, mas muitas vezes acaba escondendo o que realmente
torna aquele acontecimento relevante. O mais importante não é que a partida
tenha arrecadado recursos para os comunistas. O mais importante é que, naquele
momento da história brasileira, o movimento dos trabalhadores e o Partido
Comunista do Brasil, então com a sigla PCB, possuíam influência social
suficiente para mobilizar publicamente um dos maiores clássicos do futebol
nacional.
Para
compreender a dimensão daquele acontecimento é preciso voltar ao ambiente
político da época. A Segunda Guerra Mundial havia terminado poucos meses antes.
O nazi fascismo fora derrotado. Em grande parte do mundo crescia o prestígio
das forças que haviam participado da luta antifascista. No Brasil, o Estado
Novo chegava ao fim e o país voltava a experimentar a vida democrática depois
de anos de autoritarismo. Com a abertura política de 1945, o Partido Comunista
do Brasil recuperou seu registro legal e passou a atuar publicamente em todo o
território nacional. Ao mesmo tempo, ganhava força o Movimento Unificador dos
Trabalhadores (MUT), uma ampla articulação sindical que buscava fortalecer a
organização dos trabalhadores urbanos em um período de intensa mobilização
social.
Foi nesse
ambiente de redemocratização, esperança e intensa participação popular que
surgiu a ideia da partida. No dia 13 de outubro de 1945, no Estádio do
Pacaembu, Palmeiras e Corinthians disputaram um amistoso cuja renda seria
destinada à campanha financeira organizada pelo MUT em apoio às atividades
políticas e eleitorais dos comunistas. O público compareceu em grande número. A
arrecadação alcançou 114.464 cruzeiros, valor expressivo para a época. Em
campo, o Palmeiras venceu por 3 a 1. O dinheiro arrecadado contribuiu para
financiar a campanha eleitoral que, poucos meses depois, levaria Luís Carlos
Prestes ao Senado Federal e garantiria ao Partido Comunista do Brasil uma
expressiva bancada na Assembleia Constituinte e na Câmara dos Deputados. Entre
os eleitos estavam nomes como Jorge Amado e Carlos Marighella.
Mas
reduzir aquele jogo a uma operação de arrecadação financeira seria perder de
vista o principal. O episódio revela um Brasil muito diferente daquele que
conhecemos hoje. Naquele período, os sindicatos estavam em expansão, o
movimento operário vivia um ciclo de crescimento e a política fazia parte do
cotidiano popular de maneira muito mais direta. O futebol, por sua vez,
mantinha vínculos profundos com os bairros, as fábricas, os locais de trabalho
e as comunidades que formavam suas torcidas. Não se tratava de um futebol
isolado da sociedade. Muito pelo contrário. O esporte refletia as
transformações, os conflitos e as esperanças de seu tempo.
Olhando
para a Copa do Mundo de 2026, o contraste é inevitável. Vivemos uma época
marcada por contratos bilionários, conglomerados internacionais, fundos de
investimento, direitos globais de transmissão e pela crescente financeirização
do futebol. Em muitos casos, os clubes se transformaram em ativos econômicos
disputados por grandes grupos empresariais espalhados pelo planeta. O torcedor
continua sendo a alma do espetáculo, mas frequentemente é tratado mais como
consumidor do que como participante da vida do clube.
A
comparação com 1945 não deve servir para idealizar o passado. Aquele também era
um país cheio de desigualdades, conflitos e limitações democráticas. Ainda
assim, havia uma proximidade muito maior entre o futebol e a vida social do
Brasil. Os estádios eram espaços de encontro da classe trabalhadora. As
torcidas nasciam nos bairros populares. Os clubes carregavam, de forma mais
visível, as marcas das cidades, das comunidades e das pessoas que lhes davam
sustentação.
Por isso,
o chamado "Jogo Vermelho" continua despertando interesse oitenta anos
depois. Ele nos lembra que o futebol nunca foi apenas futebol. Por trás dos
gols, das rivalidades e das conquistas esportivas, sempre existiram disputas de
ideias, projetos de país, identidades coletivas e sonhos compartilhados. Às
vezes isso aparece de forma discreta. Em outras ocasiões, como naquele sábado
de outubro de 1945, aparece diante de dezenas de milhares de pessoas em um dos
maiores clássicos do Brasil.
Palmeiras
e Corinthians continuaram rivais antes e depois daquela partida. Nada mudou
nesse aspecto. O que mudou foi o país ao redor deles. E talvez seja justamente
por isso que a história ainda chama atenção. Não por mostrar dois clubes
ajudando uma campanha política, mas por revelar um momento em que trabalhadores
organizados, sindicatos, movimentos populares e o Partido Comunista do Brasil
ocupavam um espaço tão relevante na sociedade brasileira que um clássico entre
dois dos maiores times do país podia ser transformado, à luz do dia, em um ato
de afirmação democrática e popular. Essa, ao meu ver, é a verdadeira história
daquele jogo.
* Carlos Lima é economista e torcedor do Fluminense RJ

Belo e sucinto artigo, e foi ao ponto! Parabéns, Caco!
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