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Pepe Mujica e o legado de uma política a serviço da dignidade e da justiça social

Por Carlos Lima

A morte de José "Pepe" Mujica, em 13 de maio de 2025, marca uma perda profunda para a esquerda latino-americana e para todos os que lutam por um mundo mais justo. Mais do que um ex-presidente, Mujica foi um militante incansável da justiça social, da democracia popular e da utopia revolucionária vivida com os pés no chão. Sua trajetória não foi solitária — fez parte de uma geração que ousou enfrentar ditaduras, desafiar o neoliberalismo e sonhar com uma América Latina soberana e solidária. Mas sua coerência de vida, sua simplicidade radical e seu compromisso com os pobres e excluídos fizeram dele uma referência ética e política que permanecerá viva nas lutas do presente e do futuro.

José "Pepe" Mujica faleceu aos 89 anos, em Montevidéu, deixando um legado que transcende fronteiras partidárias e nacionais. Sua morte não é apenas motivo de luto para o povo uruguaio, mas para todos os que ainda acreditam que a política pode ser instrumento de emancipação e justiça.

Mujica foi guerrilheiro, preso político por mais de uma década, presidente, senador e, acima de tudo, humanista. Sua vida foi marcada por coerência. Um homem que sabia falar de flores e de revolução com a mesma serenidade. Que recusou os luxos do poder, preferindo morar em sua chácara, dirigir um velho Fusca e doar a maior parte de seu salário presidencial. Mas não era um monge; era um estrategista do afeto e da rebeldia. Um camponês que compreendia o mundo.

Durante seu mandato presidencial (2010–2015), consolidou o Uruguai como referência internacional em direitos sociais e liberdade civil. Sob sua liderança, o país legalizou o casamento igualitário, a regulamentação da maconha e o aborto – medidas que colocaram o pequeno vizinho no centro do debate progressista mundial. Mas mais que reformas legais, foi seu tom moral e ético que encantou. Mujica falava aos jovens, aos velhos, aos pobres e até aos poderosos, com a autoridade de quem viveu o cárcere e sobreviveu à tortura sem perder a ternura.

No cenário internacional, foi um defensor incansável da integração latino-americana. Cultivou uma relação sólida com o Brasil, especialmente com Lula, de quem era amigo pessoal. Apostou no Mercosul e na UNASUL como espaços de autonomia para os povos da região, e acreditava no Sul Global como alternativa viável à ordem neoliberal dominante. Em tempos de cinismo diplomático, ele era a exceção – comedido nas palavras, mas implacável na defesa da soberania dos povos.

Sua partida deixa um vazio que dificilmente será preenchido. Não por falta de quadros ou lideranças, mas porque Mujica era, ele mesmo, uma anomalia ética num tempo de mercantilização da política. Sua figura contrasta com a banalização do poder, com o personalismo vazio e com a política de marketing. Ele era verdadeiro. E, talvez por isso, universal.

O cortejo que o levou pelas ruas de Montevidéu não era apenas um ritual fúnebre, mas um ato de amor coletivo. Um reencontro de Pepe com seu povo, com seus ideais, com sua história. Era o povo dizendo “obrigado” a quem nunca pediu nada em troca. Era a América Latina – tantas vezes espoliada, tantas vezes traída – homenageando um dos seus raros filhos que soube ser leal a ela até o fim.

José Mujica se foi, mas não partiu. Permanece como farol. Seu exemplo seguirá iluminando aqueles que, mesmo em tempos escuros, insistem em fazer da política uma ferramenta de libertação. Ele nos ensinou que é possível ser radical sem ser intolerante. Ser revolucionário sem perder a humildade. Ser estadista sem abrir mão da humanidade.

Descansa em paz, Pepe. A tua semente está lançada. E germina, todos os dias, nos que seguem sonhando.

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